Sobre as Mazelas
Um camponês nascido no século XVIII tinha uma vida bastante difícil. Os historiadores garantem que, naquele período, a principal forma de alimentação era uma papa de pão com água, muito diferente da imagem que temos de cavaleiros carregando suas pesadas espadas, levando justiça por onde passavam e comendo todas as noites um suculento javali. A condição mais comum era a de vida ou morte, em que as famílias botavam seus filhos para fora de casa em busca de salvação nos castelos, e sofriam o constante assédio de pestes e doenças que dizimavam povoados inteiros.
Agora, supondo que esse homem tivesse capacidade de imaginar como era a vida em tempos anteriores, como no Império Romano, ele talvez pensasse que as coisas não eram muito melhores. Provavelmente, como a maior parte da população romana, ele seria um não-cidadão, sem direitos, com um regime de exploração de seu trabalho indiscriminado e virtualmente ilimitado. Suas melhores opções seriam ingressar na carreira militar, em que morreria nas mãos de bárbaros ou de infecções devido a ferimentos sem cuidados, ou então ingressar para a carreira religiosa, fazendo sacrifícios de bodes e servindo seu próprio rabo nas festas de Baco.
Podemos pensar, é claro, que as condições de vida dos descendentes do nosso camponês seriam bem melhores, e provavelmente foram. No século XIX, por exemplo, já havia um nível de urbanização e industrialização muito mais avançado.
Com isso, infelizmente, novos problemas foram aparecendo. As condições de higiene e saúde, por exemplo, eram insustentáveis: um operário trabalhava 12 horas por dia inspirando a mais pura fumaça de carvão das máquinas a vapor, morava em becos apertados e insalubres junto com ratos e baratas, e o esgoto era a céu aberto em qualquer lugar da cidade. Qualquer doença infecciosa continuava sendo morte quase certa.
Mas o século XX trouxe melhorias incontestáveis. Medicina avançada, saneamento, tecnologia, informação, quase tudo ao alcance de quase todos, quase nunca de graça. Mas se os descendentes do nosso querido camponês conseguiram vencer na vida, um pouco de cada vez, certamente eles alcançaram o século XXI com certos ares de nobreza.
Com um pouco de criatividade, podemos visualizar o tataraneto daquele sofrido camponês sentado em frente a um computador de última geração, com todo o conforto sintético e tecnologia de ponta, navegando em busca de pornografia amadora.
Ativando o lado sádico de nossa imaginação, não podemos deixar de supor que ele teria suas mazelas. Poderíamos discorrer aqui por fatigosas horas sobre os problemas que essa pessoa hipotética teria em nossa sociedade contemporânea, os transgênicos, precarização do trabalho, terrorismo e medo nuclear, mas tudo isso seria pouco eficaz frente a uma simples imagem: aquele tataraneto, encontrando em sua busca pervertida um vídeo de sua esposa em um bacanal com seus colegas do trabalho.
E o que podemos esperar para seus filhos e netos?