Estratonauta Frank Ryan
Esta semana, em visita aos Estados Unidos, travamos contato com uma figura muito importante para a Armada: Frank Ryan. Este homem, agora já aos 70 anos de idade exibe a vivacidade silenciosa de quem já esteve em lugares que poucos suspeitariam.
Famoso pela sua exemplar carreira no futebol americano, ele se destaca como um dos maiores quarterbacks de todos os tempos, Ryan jogou a maior parte de sua carreira no Cleveland Browns, entre 1962 a 1968, e é listado como a terceira melhor média de passes da história do Browns. Além disso, estamos tratando de um Ph D em matemática, com a famosa tese sobre a “Caracterização do arranjo de valores assintóticos de uma função holomórfica na unidade de disco”.
Apesar dessas duas realizações, nossa admiração por seu trabalho se deve a outra investida incomum no rumo de sua carreira: após a sua aposentadoria no futebol americano, em 1970, ele começou a se dedicar aos quadrinhos.
Seu trabalho, apesar de pouco reconhecido ou mesmo respeitado exibe uma genialidade singular, que supera sua técnica apurada e estilo marcante nos desenhos em preto e branco. Os roteiros são variados, operando temas de maneira extremamente inventiva.
A estrutura geral de seu trabalho é uma narrativa que parece normal aos leitores desavisados, mas aos poucos se mostra instigante e perturbadora. Acontece que, depois das páginas iniciais de apresentação dos personagens e de eventos dramáticos iniciais, o desenho gradualmente vai se tornando mais apressado, a arte-final vai desaparecendo e os diálogos vão se simplificando até o momento em que não resta mais nada, apenas algumas páginas em branco e o fim surpreendente da edição.
As análises de críticos especializados argumentam que se trata de obras em aberto, em que o leitor é que deve “ligar os pontos” e dar cabo, em sua mente no que não foi solucionado. Exemplos semelhantes podem ser encontrados em outras formas de arte, como o teatro, no entanto não há consenso sobre essa linha de análise no caso do trabalho de Ryan.
Sua obra é marcada também pelas dificuldades de publicação: “Nunca consegui me estabelecer como autor de quadrinhos, ainda mais porque o mercado estava muito difícil nos anos 80, então eu fechava contrato com as gráficas e editava sozinho, e distribuía pelo correio. Quase sempre levei prejuízo, mas fazer o quê?”.
Seus trabalhos principais são histórias com um toque de surrealidade. A histórias menores (uma página em média) são fechadas, mas os elementos perturbadores já estão presentes, como são os casos do schnauzer depressivo e do menino e seu amigo imaginário, além de uma vasta quantidade de tirinhas.
A primeira história mais longa a qual temos contato é a de uma nação que vive, por opção, em um cenário medieval, ainda que adotem certas tecnologias como rádio, por exemplo. Poderíamos citar ainda outros trabalhos, como uma história pós-apocalíptica em estilo western com lagartos de bigode ou um universo meio arca de Noé, com bichos falantes. No entanto não é isso que interessa, mas sempre o que não foi em absoluto dado e se configura de maneira pessoal para cada um.
Um de nós, em vista da oportunidade do encontro, levou uma versão em que havia terminado com suas próprias idéias e traços o que Ryan havia deixado em aberto e mostrou para o ídolo.
Sua reação foi curiosa: “interessante a sua solução, mas eu fiz diferente”, e nos mostrou como havia concluído ele mesmo a história. Tratava-se, entretanto, de um final um tanto quanto decepcionante para as expectativas deixadas pelas páginas em branco.
O silêncio abriu o espaço para a pergunta crucial: por que, realmente, ele quase nunca terminava suas histórias? No ele respondeu modestamente que na realidade tratava-e apenas de um problema que ele tinha com os cronogramas que acertava com as gráficas, e por causa disso era obrigado a enviar o trabalho incompleto.
Houve um momento de dúvida, mas no fundo todos sabíamos que era apenas a maneira que Frank Ryan encontrou para manter viva a angústia de não saber. E de qualquer forma, o valor de seu trabalho incompleto é maior do que todas as histórias completas que não se fazem a altura do que podiam ser.
Uma homenagem a Raphael Pires S.