Ardil Alomorfo
Toda a terrível seqüência de eventos que levou até o presente momento é, em larga medida, fruto das sabotagens efetuadas por um agente duplo, que chamaremos apenas de Hermes, por questões de segurança – esta figura contempla hoje todo o poder conquistado dentro de nossa organização, e portanto seria imprudente um enfrentamento direto com as informações que se seguem.
Os resultados iniciais da pesquisa de campo de nossa Armada revelavam, no cruzamento dos dados sobre os fluxos sanguíneos nas condições de estresse induzido quimicamente com as ressonâncias eletromagnéticas de baixa freqüência, a possibilidade de acertar uma nova estratégia de abordagem metodológica para prever (e possivelmente prevenir) o processo de cristalização de padrões de conexão sintática cognitiva, em vista do rigor e constância dos dados,
A esse passo, no entanto, não era possível fazer qualquer tipo de publicação, ainda que superficial e interna às Brigadas de Libertação, pois era imprescindível testar o método em condições reais de uso, ou seja, em redes abertas, e para isso entramos em contato com a Junta de Barbosa e Araque. Eles ficaram responsáveis por nos disponibilizar um soldado-cobaia, sem que esse estivesse de fato a par dos testes, para maior rigor.
Os resultados foram perfeitos. Nesse momento Hermes, que não fazia parte da pesquisa inicialmente, entrou em contato com nossa equipe Alfa para garantir que já tinha recebidos os dados e que ia entrar em contato com os superiores em dois dias, e que deveríamos reverter os dados agora para as condições de batalha em campo aberto. Hoje podemos ver claramente que, na verdade, ele recebeu no máximo cochichos de algum funcionário de limpeza curioso, mas agora já é tarde.
Como ele falava com demasiada confiança, T. H. Floyd, o então vice-pesquisador-chefe, cabelo negro para o lado, jovem, barba feita, de família rica, mas repleta de problemas de pele genéticos, entrou em contato com Hermes. Floyd lhe garantiu que devia haver algum engano, e dessa forma o ardiloso golpe teve início. Ao conversar com Hermes, o pesquisador baixinho e perebento acabou por revelar-lhe informações secretas fundamentais sobre o caráter alomorfo dos compostos químicos – sem perceber, ele entregou o segredo da fórmula.
A partir de então, Hermes levantou rapidamente uma série de autorizações com seu amante, o Coronel, e efetuou a partir disso diversas subversões de pequeno porte em nossa pesquisa, mas que, após o longo período de vinte e oito séculos, o colocou como figura expoente na construção dos resultados finais, com o pretensioso título de “Luz do Saber”. Esse, na verdade, não é o problema, quero destacar, mas sim o fato de que uma pesquisa na ordem da estimulação social de conexão de singulares replicantes foi usada, com manobras desleais na morfologia dos cristais da mesma substância química que criamos, para estimular hordas bárbaras de legalistas contra toda a Brigada de Libertação.